foto DNA vida deste que vos escreve tem passado por momentos tormentosos, mormente desde o final do Verão passado, ao ponto de o terem desviado de duas das suas grandes paixões. Assim, tenho falhado filmes e espectáculos musicais que, em circunstâncias normais, não falharia. Só desta forma se explica nem ter dado pela presença em Lisboa de Mark Knopfler e de, por isso, não ter assistido ao concerto que o ex-Dire Straits deu no Campo Pequeno.
Ao que me informei junto de quem assistiu ao concerto, o mestre das guitarras continua muito colado ao que produziu com os Dire Straits, o que, tendo em conta que se trata de um concerto em nome próprio, não é propriamente correcto, não sendo, no entanto, de todo condenável. Valeria a pena tê-lo assistido, quanto mais não fosse para escutar os maravilhosos sons que as guitarras de Mr. Knopfler produzem.
Mas lá está, as pessoas que o vão ver querem lá saber da carreira a solo de Mark Knopfler, que é de grande qualidade, diga-se em abono da verdade, nomeadamente ao nível das bandas sonoras que compôs [aconselho, por isso, a audição atenta de Screenplaying (Music From The Films ...) e da banda sonora de A Shot At Glory] e que vale, pelo menos, tanto quanta a necessidade de recurso ao espólio dos Dire Straits. E as pessoas não querem saber porque não se dão ao trabalho de a conhecer em profundidade.
Mas, pronto, trata-se de um mal do qual, em bom rigor, Knopfler não é o único a padecer. O mesmo acontece, por exemplo, com Roger Waters, Sting ou com Bryan Ferry, que não passam nos seus concertos sem temas dos Pink Floyd, The Police ou dos Roxy Music, respectivamente (menção honrosa para Peter Gabriel ou Phil Collins, que não cantam temas dos Genesis nos respectivos concertos a solo ou para Eric Clapton). É fácil poder contar com muletas assim. E porquê? Porque as pessoas ouvem as canções com a nostalgia de recordações de situações vividas, em anos de juventude, principalmente. Logo, também é mais provável que as recordações sejam melhores.
Por isso, compreende-se que a qualidade, mesmo que não tivesse sido boa, seria alvo da condescendência de todos quantos lá se deslocaram, dados os “serviços prestados” pelo artista em tempos anteriores. Também porque não é todos os dias que Lisboa é agraciada com a visita de uma das referências musicais dos anos 80 e 90, embora agora a solo, mas sempre com o anexo da discografia da antiga banda.
Este longo intróito serve, no entanto, para indicar que este que aqui escreve pretende retomar o tempo e a disposição perdidas, começando já por sexta-feira, no Pavilhão Atlântico. A maior sala de espectáculos (e outros eventos) de Lisboa será palco de um concerto único que terá como protagonistas uma banda pop rock que decidiu ironicamente roubar a sigla (que viria a tornar-se, entretanto, no seu nome) a uma força da ordem e a banda sinfónica desta.
Curiosamente, a ideia de tal originalidade partiu dos responsáveis dessa instituição, o que pode ser visto como um sinal de abertura ao exterior da menos progressista das forças da ordem, algo que é explicitamente confirmado pelo maestro da GNR, o tenente-coronel Jacinto Montezo (nos seus tempos “áureos” membro do Grupo de Baile, a banda do mítico Patchouly). A relação entre os GNR e a GNR começou por não ser a melhor. Em 1981, o single Sê Um GNR falava no "gordo da GNR" e Jacinto Montezo admite ter sido uma das vozes que se juntou ao coro de críticas contra o Grupo Novo Rock. Mas hoje, "as mentalidades mudaram e a diferença entre os GNR e a GNR estão esclarecidas". Por outro lado, "esta é uma oportunidade para a Guarda Nacional Republicana se abrir à sociedade civil". Montezo é, mesmo, da opinião que "estes são os momentos que dão realmente gozo". Jacinto Montezo explica que tudo se iniciou "há dois anos em Vilar de Mouros" quando foi questionado sobre um desafio que entusiasmasse a banda que dirige. "Lembrei-me que seria interessante trabalhar com eles [GNR] até pela própria sigla e porque há canções que poderiam ser facilmente transpostas", disse.
Os arranjos dos temas ficam a cargo de Mário Laginha, Bernardo Moreira, Filipe Melo, Hugo Novo e Vasco Pearce de Azevedo e estão garantidos temas como Dunas, Bellevue, Sexta-Feira (Um Seu Criado), Quero Que Vá Tudo Para O Inferno ou Video Maria num alinhamento composto por 15 canções.
Assim, é com particular curiosidade que eu (e mais 10 mil pessoas) me deslocarei mais logo ao Parque das Nações para ver como é que a banda sinfónica da GNR (Guarda Nacional Republicana) interagirá com a irreverência do GNR (Grupo Novo Rock) e como soa a música pop-rock lusa com uma banda já de si dona de um som singularmente rico. Toli César Machado fez questão de lembrar que se trata de um concerto único ou de muito difícil repetição, dadas as naturais dificuldades logísticas e de agenda das duas… bandas.
Por uma noite, também eu serei um GNR.
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