1 de abril de 2008

Problema de Expressão



“Só p’ra dizer que te amo / nem sempre encontro o melhor termo / nem sempre escolho o melhor modo (…) Só p’ra dizer que te amo / não sei porquê este embaraço / que mais parece que só te estimo”. Estas duas estrofes fazem parte de uma fantástica canção dos portugueses Clã intitulada Problema de Expressão e são fruto da inspiração (parece que, felizmente, constante) de um dos maiores letristas portugueses: Carlos Tê. Estas palavras reflectem bem aquele que considero ser (e creio não ser a única pessoa a pensar assim) um dos maiores problemas das sociedades. Desde sempre, mas, principalmente, agora.

Assistem-se nos dias de hoje às maiores taxas de divórcio e a um maior número de rompimentos de relações. As causas podem ser várias, começando pela evolução social (leia-se, também, maior liberalização), mas na base estão sempre sentimentos relacionados com problemas de comunicação: o excesso, a falta dela ou a incompreensão de uma das partes ou mútua do que se comunica (ou não). Porque os sentimentos, como o amor, também são influenciados pela comunicação (seja ela verbal, gestual… qualquer forma).

Nunca o conceito Comunicação foi tão fundamental como nos tempos que correm. É, no entanto, verdade que em nenhuma altura da História das civilizações se comunicou tanto como agora. Só o advento da Internet e tudo o que dela resultou fez com que se comunicasse mais num ano do que, possivelmente, em décadas. Aos meios tradicionais (orais, em papel – seja por carta, jornal, livro ou qualquer outro formato - e, mais tarde, através de telefone, rádio, televisão e telemóveis), juntou-se a Internet, que, para além da difusão de informação, permitiu novas formas de comunicação praticamente instantânea entre as pessoas. Estamos na era da banda larga, das SMS’s gratuitas, dos programas de conversação instantânea.

Contudo e apesar da profusão de meios de comunicação, vive-se, paradoxalmente, numa era de falta de comunicação pessoal. E isso repercute-se no que há de mais importante para os seres humanos que gostam de viver em sociedade: as relações inter-pessoais. Há casais que raramente discutem os problemas, seja porque uma das partes julga estar tudo bem (por não o conseguir descortinar por si), seja por falta de perspicácia, seja pelo carácter mais introspectivo do outro, que o leva a não ter vontade ou a não conseguir abordar os problemas directamente com os visados [antes preferindo desabafar com o travesseiro ou através do seu diário. Agora, mais prosaicamente, os “blogs” cumprem os mesmíssimos fins, embora com a (des)vantagem de poderem ser públicos ou de se manterem confidências a cobro do anonimato]. Seja, por fim e talvez mais importante que tudo, porque as pessoas são diferentes (para mais quando são homem e mulher).

As especifidades de cada sexo levam, depois, a que sociedade e os media tenham formatos de comunicação próprios para cada sexo, como revistas, programas de televisão ou, até, canais temáticos, fomentando essas diferenças, talvez, apenas com propósitos comerciais.

E o pior é que há quem vá nisso. Livros como “O Diário de Bridget Jones”, “Os Homens São De Marte, As Mulheres De Vénus” ou mesmo as séries de TV, “Donas De Casa Desesperadas” e “O Sexo E A Cidade” e, domesticamente falando, as obras (e, principalmente, as crónicas) de Margarida Rebelo Pinto constituíram todas verdadeiros sucessos de vendas e/ou popularidade. Segundo estas obras (que tiveram, curiosamente, maiores audiências femininas), escritas com maior ou menor ironia, sarcasmo, humor ou seriedade, as mulheres nunca têm culpa quando um relacionamento heterossexual falha.

E como o “target” é mesmo o feminino, valha-nos Deus que alguma vez se escreva que as mulheres têm culpa de alguma coisa, para mais se tal ideia for veiculada por outra pessoa desse sexo. Lá se ia o efeito “feel good” (que pode ler-se assim: “Nós somos sensíveis, eles são umas bestas”; “Nós passamos tempos a arranjar-nos para eles e eles não nos ligam nenhuma”; “nós temos de estar em forma física e eles só querem estar em paz, agarrados à TV, a ver futebol”).

Na história da Humanidade (pelo menos das sociedades ocidentais e, desde sempre, mais liberais) devem contar-se pelos dedos de duas mãos (e talvez esta seja uma estimativa muito optimista) os casos em que uma mulher admitiu publicamente ou perante as pessoas suas confidentes que o seu casamento ou namoro (ou outro tipo de relacionamento) não resultou por sua exclusiva culpa ou que a maior das culpas era sua.

Obras da chamada “auto-ajuda” versando relacionamentos heterossexuais acabam por ter a mesma importância do que o alinhamento dos astros no momento em que duas pessoas se conheceram ou o estado do tempo nessa altura ou aquela velha máxima de “boda molhada, boda abençoada”. Como assentam, basicamente, em generalizações, levar os seus conteúdos à risca pode ter consequências nefastas, porque cada caso é um caso. Uma mulher pode ser bem-sucedida em futuros relacionamentos. Ou não.

O problema é que, como quase em tudo nesta vida que diga respeito a relacionamentos humanos, as coisas não são assim tão lineares, nem preto ou branco. Senão, como se explicaria que, da mesma forma que os homens parecem, segundo as escritoras de tendências feministas (ou seja, com escritos apontando para a chamada “guerra dos sexos”, talvez apenas somente por motivos de ordem… comercial), preferir as “cabras”, as mulheres tendem a atrair-se pelos “feios, porcos e maus” ou pelos “filhos da mãe” (sendo que alguns dos quais chegam mesmo a bater nas parceiras e elas, por impossibilidade ou mesmo, mais incrivelmente, por amor, acabam por ficar com eles ou, depois de uma curta separação, acabam por voltar)?

E outra falha é que todas estas obras padecem do mesmo mal, talvez por uma questão de maior facilidade na enunciação dos problemas: Por julgarem os homens como seres psicologicamente mais fáceis de descodificar - dado estes serem geralmente considerados mais directos e mais primários e, logo, tendencialmente lineares nas suas reacções - asseveram saber quase tudo sobre eles e arvoram-se em especialistas do comportamento masculino, decretando, através dos seus escritos, que os seres do sexo oposto são todos iguais.

Portanto, como há o (mau) hábito de se encontrarem “bodes expiatórios”, os homens é que são os mauzões, devassos, pueris, desatentos, insensíveis, que não se preocupam com a respectiva aparência, enquanto ainda apontam o dedo à parceira, cara-metade, amante, etc. e são capazes de todas as judiarias. Logo, são também os únicos culpados por todos os males do Mundo. E que, por uma questão de machismo, puro gozo da conquista ou apenas orgulho perante os outros homens exibem a parceira como troféu, só se interessam pelas chamadas “cabras”. Já Meredith Brooks cantava, no seu tema Bitch, a afirmação feminina, no caso, individual.

Aliás, este conceito deu mesmo o título “Why Men Love Bitches?”, onde, uma vez mais, a pessoa que escreveu a obra – convenientemente, uma mulher – discorre em pouco mais de 200 páginas que os homens passaram a preferir as “cabras” apenas porque estas dão luta, pelo que a corte é constante. E qual é, segundo a autora, a principal variável entre a “menina boazinha” (“nice girl”) e uma “cabra” (“bitch”)? “A maior variável entre uma ‘bitch’ e uma mulher que é demasiado boazinha é o medo. A ‘bitch’ mostra que não tem medo de estar sem ele”.
Contudo, esta situação, quando colocada no inverso tem o seu quê. Para as mulheres, estas poderem serem “bitches” em 2008 é o máximo da afirmação inter-sexos, mas, quando confrontadas com homens com comportamentos semelhantes, estes passam (aos olhos delas, claro está) a frios, insensíveis, cruéis e poucos escrupulosos e não têm consideração pela especificidade da mulher, esse ser eminentemente belo, sensível e frágil (e por tudo isto ou apenas isto, supostamente também mais carente).

No caso concreto deste que vos escreve, eventualmente ao contrário do que algumas pessoas pensam (e lamento desiludi-las a esse respeito (e, sim, eu sei e admito perfeitamente que terei desiludido noutros), não sou dos que preferem as “bitches”, nem quero ou preciso de uma “sargentona” para me por na ordem e me disciplinar. O que (é) preciso é que alguém fale (comigo) quando tem problemas (e os queira resolver em conjunto) ou ache que o outro não está a agir da forma mais correcta (mesmo que não se dê conta disso e necessite de uma chamada de atenção), em vez de colocar o orgulho à frente, para, assim, não ter de mascarar ou mesmo reconhecer os seus próprios erros e, dessa forma, achar que perdeu a face.

Para pessoas assim, Sorry Seems To Be The Hardest Word, como canta exemplarmente o Elton John (e melhor ainda nas versões do próprio com os Blue e com Ray Charles), cai que nem uma luva. E depois há os que não têm problemas em assumir as suas culpas ou responsabilidades, independentemente da quantidade, da gravidade ou da intencionalidade dos erros e pedem desculpa. Para estes, há os Stage Dolls e uma “power ballad” dos anos 90, Sorry (Is All Can Say). Bem sei que as desculpas não se pedem, evitam-se. Fossem todas as pessoas capazes de pedir desculpa ou perdoar quando é devido e o Mundo seria, certamente, um local bem melhor.

Uma vez mais, o que é mesmo preciso é comunicação (independentemente do formato escolhido, porque o fundamental é mesmo que o código escolhido pelo emissor seja totalmente apreendido pelo receptor). Porque o amor está lá, mais ou menos escondido, por entre (a falta de) actos mais ou menos desajeitados. É que ele está mesmo lá. E, às vezes, não é preciso dizer ao outro que a/o amamos, mas… lá que sabe muito bem ouvi-lo, isso sabe. Nem que seja uma só vez.

2 comentários:

Unknown disse...

Ora o vício de blogger se pegou... já se põe um texto por dia! o problema de expressão infelizmente não afecta apenas os sentimentos!! força nessas reflexões eu estarei atenta

Unknown disse...

Ora agora que o vício do blogger se espalhou publica-se um texto por dia muito bem... infelizmente o problema de expressão não existe apenas na matéria de sentimentos!!publica mais as tuas belas reflexões... estarei atenta