30 de abril de 2008

(N)As Caves do Desejo



Ele julgava que aquela era apenas uma das suas infinitas (mas sempre curtas) viagens de elevador de um prédio com o qual tão bem convive diariamente. É certo que estava (muito bem) acompanhado e que deixara no seu pequeno casulo uma outra companhia… de outros dias e outras horas, mas não aquela, a que o acompanhava para um trajecto que se julgava curto, mas que se veio a revelar tão longo e marcante quanto o tempo que a recordação irá perdurar, mesmo que jamais venha a ser relembrada e, de preferência, repetida e incessantemente reafirmada.

A descida ao recôndito mundo íntimo do outro durou uma hora, tempo suficiente para que os dois se encontrassem na escuridão, deambulassem da forma que quisessem, explorando todos os sentidos e exortando a que os desejos que cada um reprimia se fundissem numa só entidade, porque o mundo é um momento, que naquelas escadas se eternizou. Sempre, naquele momento e naquele espaço recôndito, souberam encontrar o que queriam naquela penúria, onde os vultos apenas se conheceram, por sentidos que não o da visão, ou somente através de um olhar para o qual a luz era, somente, uma condição acessória. Eles viram-se no toque, visitaram partes do outro que nunca haviam conhecido, saciaram parte do desejo, estimulando o paladar, que os guiou, através do sabor e, depois, do tacto, aos seus jardins proibidos.

Ironicamente, o primeiro pensamento dele quando se viu alvo do desejo de quem desejava foi algo como “Não, isto não está a acontecer de novo. Se acontecer como da outra vez, isto pode acabar mal para o meu lado, como da outra vez”. Contudo, esse pensamento ‘durou’ um andar, porque ele, tal como na ocasião anterior e apesar de estar bem lembrado das marcas que esse episódio lhe deixou, sentiu-se alvo do desejo dela. Racionalmente, ele não tinha nenhum motivo para voltar a passar pelo mesmo e, pior do que isso, pela ressaca dessa experiência excelente e que, instantes depois, se esvaneceu como o fumo numa madrugada escura e fria.

Contudo, emocionalmente, ele só voltou a querer que o tempo parasse ali, tal como parara por minutos, meses antes, junto a um rio que, no seu perpétuo movimento, já testemunhou infinitos episódios porventura semelhantes, por entre juras mútuas por várias vicissitudes entretanto desfeitas. Emocionalmente, era a concretização de um sonho, com a mulher que, na maior parte dos dias e das noites lhe povoava os pensamentos… daqueles que ele raramente confessa, talvez por não querer parecer banal ou porque revelá-los, mesmo àquela pessoa, entretanto mais habituada a tratamentos quase surreais da parte dos mais variados “especimens” masculinos, poderia ser somente mais um ‘déjà vu’ que não aquela em causa seria sacrílego.

Emocionalmente, aquela mulher era-lhe… sagrada. Era a tal que, quase dois anos antes, fora por ele colocada num pedestal para brilhar ainda mais do que a estrela com a qual ele a compara. Por isso, tentou sempre lutar contra os chamados ‘pensamentos ímpios’, mas o desejo por ela - por captar a sua atenção ou ser alvo dos seus desejos mais carnais e primários, por tê-la nos seus braços nem que seja somente por instantes – era muito mais forte. Para ele, desde que a conheceu, sempre houve aquela mulher e as outras e talvez isso explique parte da razão pela qual lhe era difícil olhar nos seus olhos esverdeados. E como eles eram belos…

Antes, instantes antes, ele confessara-lhe que, por muito acompanhado que se sentisse, havia sempre uma pessoa que ele procurava, antes de todas as outras, antes de todas aquelas que também o procuravam e que, (só) por isso, quase consumia todos os seus actos e bebia as suas palavras, como se venerasse uma entidade perfeita e, por isso, suprema. Ele confessara-lhe que era com ela com quem ele queria estar… sempre e que só, por vezes, a frustração e algum constrangimento por uma situação anterior o impediam de manifestar algo mais do que o apoio que nunca deixou de expressar (mesmo quando se mostrava crítico sobre atitudes ou actos). Os olhos e o olhar esfíngico, que muitas vezes lhe servem de barreira a invasões indesejadas, passaram a traí-lo com uma impressionantemente cada vez maior regularidade desde que notou o quanto ela o afectava, directa e indirectamente. Daí, que ele já nem fazia questão de escondê-lo.

A verdade é que ela sempre encontrara nele mais um porto de abrigo ou o porto de abrigo, alguém que nunca lhe cobrara nada para além do privilégio da sua companhia, mesmo quando o tempo é escasso (como quase sempre) - por vezes escasso demais para que ele se deleitasse com tudo o que a sua vista nela alcançava ou o que porventura teriam para dizer – e os motivos que os aproximam eram outros que não a vontade de desfrutarem mutuamente de afecto. Primeiro, era e será um amigo e, depois, trata-se de (mais) uma pessoa por quem ela tem um afecto especial e até desejo, mesmo que apenas esporádico. Ele dissera-lhe que seria tudo aquilo que ela quisesse que ele fosse, desde que ela o soubesse estimar, porque ele nunca lhe fora outra coisa que não constante, na sua presença, no seu afecto e mesmo no seu amor, ainda que das mais variadas formas.

Todavia, doía-lhe tanto tê-la na sua atenção (por ter quase a certeza que nunca viria a ser credor de algo mais), mas doer-lhe-ia certamente mais alguma vez ter de partir, somente para não passar pela incandescência própria das reentradas de um vaivém na atmosfera da realidade… terrena e arriscar-se a uma queda dolorosa. “Houston, we have a problem”, dizem por vezes aqueles que se aventuram em danças com estrelas quando regressam ao mundo… real. E, por vezes, é a estrela esse mesmo problema, mas não há lá Houston para ajudar. E quando recorrentemente procura Houston para saber se deva anular todas as missões e procurar novos mundos, que não exerçam aquele magnetismo, volta a ser empurrado para aquela órbita, ficando como mais um satélite, que apenas se mostra no ocaso… das outras luzes.

Ali, não havia luzes e, talvez por isso, ele revelara-se. Escondidos pela cúmplice escuridão estiveram aqueles dois corpos (e respectivos donos), que, por motivações eventualmente diferentes, se desejaram. É certo que qualquer um podia ter acendido uma luz, mesmo que periodicamente esta se apagasse, mas a urgência do desejo tornou a iluminação em algo então dispensável. Depois de todos os entretanto confessados problemas em olhá-la nos olhos (e render-se ou perder o controlo dos seus próprios sentimentos), ele, mais do que nunca, quisera captar o verde dos seus olhos enquanto efemeramente lhe amava o corpo, como se sentisse a necessidade de provar-lhe e reforçar o quanto a desejava e assim ser escutado e correspondido por um coração tormentoso e atormentado. Contudo, prevaleceu a escuridão e a ele apenas lhe restou o privilégio de adorar o seu corpo com os restantes sentidos, tentando imaginar a figura desnudada do objecto do seu desejo, como se de uma estátua de pureza e feições clássicas se tratasse.

Com a penúria do espaço… profundo, ficou nele a ideia de que, se calhar, tudo não tivesse passado de um sonho, não fosse ele ter ficado um odor íntimo na sua mão e uma fragrância cinematográfica no pescoço e de outro alguém entretanto lhe ter comentado com ar malicioso: “Tu foste comer, mas não foi… o jantar”. Mas também esses ‘souvenirs’ se esvaneceriam… com as gotas de água de mais um duche. Aquele que tomara uma hora antes perdera, por momentos de frenética luxúria, toda a actualidade e mandavam as regras da vida em sociedade que o corpo se lavasse de todas as impurezas, mesmo aquelas que ele gostava de manter para se manter inebriado e, assim, mergulhado nos meandros daquela memória. Talvez ele e ela não estivessem fadados para encontros… convencionais (se é que alguma vez os seus encontros foram convencionais, por uma série de vicissitudes, episódios caricatos ou dramáticos). Talvez nunca venham a encontrar-se de outra forma que não em situações quase cronometradas em contagem decrescente e em segredo.

4 comentários:

Anónimo disse...

jovem... tu começa a escrever para a rúbrica dos contos eróticos da Maria que tu vais lá vais!

Anónimo disse...

Deixo o rasto da minha presença.
És tu aí desse lado.
Gostei de ler.

Beijo doce

Anónimo disse...

lolololllllll
esse anónimo teve a sua "piada". Mas facto é que eu própria não posso dizer nada relativamente a este tipo de escrita porque... é o MEU estilo de escrita também.
Está muito bom!
Eu,também, amo tanto descrever momentos como vive-los.. assim... devagar... vírgula a vírgula... gemido a gemido, tudo devidamente compassado...
Escrever, assim, é como repetir uma refeição de que se gosta muito... é reviver o prazer.. e tudo o que dá prazer é tão bom...
Acima de tudo; TUDO o que é clandestinamente vivido e escrito é tão melhor... é segredo...
Por isso mesmo não vou fazer o LogIn e identificar-me... Mas tu sabes bem quem sou...
Mas fica a ser segredo...

Anónimo disse...

Porque há momentos e pessoas especiais... há estórias assim... :)