17 de junho de 2008

Sexo E A Cidade... e algo mais



AVISO: A quem ainda não viu o Sex And The City no cinema e ainda contar ver o filme, é favor não ler esta crónica, sob pena de ficar a saber parte do enredo. E este que vos escreve não quer ser considerado um "spoiler".

Era uma das estreias cinematográficas mais aguardadas do ano. A transposição para o grande ecrã da série televisiva Sex And The City dividia o espaço cultural mediático com o Rock In Rio Lisboa 2008. A confirmar essa ideia, estava o facto de a Visão colocar “Carrie Bradshaw”/Sarah Jessica Parker na capa e, a propósito da estreia do filme nas salas nacionais, falar no “Sexo Forte - O que mudou no comportamento, nas conversas e na cama das mulheres”. Segundo a Visão, que, para tal consultou, entre outras, essa verdadeira especialista em homens de raça lusitana que responde pelo nome de Margarida Rebelo Pinto, as mulheres passaram a ser o “sexo forte”, tão-somente pelo facto de se terem emancipado e finalmente tomarem decisões que, em boa parte dos casos, visam a sua independência. Por aqui se vê a importância que a série passou a ter nas mentalidades das mulheres portuguesas, ao ponto de ajudar a mudá-las e a permitir que, pelo menos algumas, passassem a ter outra atitude perante a vida.

Confesso que não estava à espera de ver o filme tão cedo e muito menos que fosse na noite de estreia. E como tudo tem uma explicação, para que tal se tivesse sucedido, fui inesperadamente convidado por uma pessoa amiga a integrar uma romaria de cerca de 20 personagens (17 das quais mulheres) à sala de cinema mais próxima. E se o artigo da Visão e a crítica ao filme me deixaram curioso quanto ao que esperar, ter constatado “in loco” o quanto a série se tornou querida (principalmente) do público feminino constituiu uma inestimável “experiência sociológica”.

Chegado à zona das bilheteiras, deparei-me com um espectáculo de entusiasmo colectivo mais habitual em eventos desportivos ou concertos musicais. A estreia de Sex And The City marcava reencontros de amigas que não se viam há algum tempo, outras que saíram das compras directamente para a sala de cinema, carregadas de sacos e aperaltadas, ansiosas por pôr as tricas em dia, tal e qual as personagens da série agora transposta do pequeno para o grande ecrã.

Questionava-me, durante o filme, sobre as razões que levaram a que a série e, por arrasto, a película tivesse tanto sucesso e a verdade é que uma das explicações que encontrei se prende com a identificação que a generalidade das mulheres urbanas das faixas etárias das personagens sente relativamente a estas, na forma de agir, mas, principalmente, na forma de pensar. Depois, a série e o filme assentam na fortíssima amizade e cumplicidade que as quatro sentiam entre si, mesmo que a vida de cada uma mudasse radicalmente e que a interacção entre elas levasse a divergências ou a situações de maior afastamento/proximidade. E notou-se na sala que muitos grupos de melhores amigas haviam ido em romaria para ver e comentar e as incidências da amizade entre Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda.

Não sendo eu um particular seguidor da série – como diz uma pessoa minha amiga, “mal seria que fosses. Alguma coisa estaria muito errada contigo… ” – e não fazendo parte de uma amizade grupal com laços tão fortes como os das quatro nova-iorquinas, senti-me como um “peixe fora de água” naquela sala de cinema (sensação que também não terá sido estranha à maioria dos cerca de 25 homens ali presentes, perfeitamente abafados pelas cerca de 200 mulheres dominavam a sala). Assim, tinha tanta curiosidade em ver a trama do filme como em tentar compreender certos e determinados comportamentos femininos, fosse no filme, fosse na vida real.

Expectativas? Diga-se, em abono da verdade, não eram muitas. Ou seja, não estava à espera de uma obra prima da sétima arte, mas sim, tal como veio a suceder-se, de mais um episódio da série transposto para o grande ecrã, mas desta vez com acontecimentos (e respectivas consequências) condensados por forma a caberem em quase duas horas e meia de filme. E o filme, diga-se em abono da verdade, teve de tudo: compras de artigos de marca (em dose moderada), casamentos (com o noivo em fuga, algo que, de facto, escapou ao cliché neste género de filmes), novas amizades, bebés, arrufos entre amigos, crises matrimoniais com traições, crises existenciais, conversas menos sérias e outras mesmo bastante sérias. No fundo, tem praticamente tudo o que se pode encontrar na vida das grandes urbes das sociedades ocidentais.

Carrie e Samantha, que são as personagens mais carismáticas entre as quatro consideradas principais (que me perdoem Miranda e Charlotte), passam por aquilo que muitas das mais indefectíveis julgavam não ser possível: a colunista vai finalmente casar com o seu Mr. Big, ao passo que a relações públicas se rendera, entretanto e durante cinco anos, aos encantos da vida em comum com o seu modelo/actor e atravessa uma crise matrimonial/sentimental. No entanto, a vida não é tão simples, pois o ser humano tem o mágico condão de complicar as coisas mais lineares (contra mim falo, por vezes). E é na resolução (ou não) dos problemas que criamos (ou nos criam) que todo o filme gira à volta.

A segunda parte (sim, o filme tinha intervalo quando o fui ver) foi a mais séria e, apesar das esporádicas tiradas de humor, fez muita gente pensar nas suas vidas, naquilo que e como queremos, em quem e como queremos, no que fomos perdendo, em quem perdemos ao longo da nossa vida, isto porque, a partir de certa altura, Carrie e Miranda se viram sem os respectivos mais-que-tudo.

Assim, passaram tristes três alturas do ano que toda a maior parte das pessoas considera como festivas: o Natal, Ano Novo e Dia dos Namorados. E nessa altura, os risinhos que se iam ouvindo durante o filme pararam como que por magia.

Eu próprio tentei recordar-me de como passei esses dias. E dei-me conta que me faltou alguma coisa e alguém. E se o Natal passei como de costume com a família, o Ano Novo que desejaria passar em paz, foi passado no Pavilhão Atlântico, num camarim a preparar-me para um espectacular momento de humor transmitido em directo para todo o país (e em que tinha de mostrar uma cara feliz), rodeado de amigos e companheiros do coro do qual faço orgulhosamente parte (e que agora formam uma grande família unida e feliz), mas com a cabeça noutro lado, onde ela estivesse.

O Dia dos Namorados, então, foi o mais estranho dos últimos anos (e não apenas por ter sido o primeiro em nove anos que passei sem cara-metade), pois foi passado a trabalhar, ironicamente no mesmo local em que alguém decidira, meses antes, anunciar o fim de um relacionamento: num estádio de futebol. Depois, até mesmo durante a partida em causa, era relembrado disso: do dia e do local em que me encontrava (“Aproveite a campanha do Dia dos Namorados e ofereça à sua cara metade um bilhete para o próximo jogo…”, podia ouvir-se na instalação sonora do recinto). E tudo me faz recordar ela (mesmo e principalmente naquele local, onde até o futebol já foi melhor).

Regressando a Sex And The City, é claro que tinha de ter um “happy ending” (a gravidez de sucesso de Charlotte, o regresso de Samantha a Nova Iorque e à vida de boémia independente, o reatamento do casamento de Miranda e até o casamento de Carrie com Mr. Big) ou não fosse a adaptação ao cinema de uma série para o “feel good” feminino e onde o mais importante, apesar das reviravoltas da trama, esteve sempre lá: a amizade daquelas quatro mulheres, tão diferentes, mas, simultaneamente, tão iguais e tão cúmplices.

P. S. - E há ainda um excelente desempenho de Jennifer Hudson, que interpreta o papel de assistente pessoal de Carrie e que acaba por encher o filme com um desempenho que só rivaliza com o de Cynthia Nixon (a Miranda).

2 comentários:

Anónimo disse...

Nem sei que dizer... como mulher que estava a meia dúzia de metros deste escritor inspirado, que consegue absorver tanto (ou tão pouco) da essência feminina.

Sei que o filme/série marca toda a geração das mulheres dos nossos dias :)

Anónimo disse...

Parabéns!...
Consegues, de facto, absorver bastante ( para homem q és, lol) da essnciência - complexa - feminina...

Teresa